Vai todo mundo morrer, então Carpe Diem | Os Dois Morrem No Final | Resenhas
- Pedro Vieira

- 5 de out. de 2021
- 7 min de leitura
Num mundo em que a data da sua morte pode ser prevista e anunciada, uma última chance de viver lhe é apresentada. O que você faria se soubesse que apenas lhe restam vinte e quatro horas nesse mundo?

Não creio que seja spoiler dizer que Mateo Torrez e Rufus Emeterio morrem no final do livro, quer dizer, tá literalmente no título e a primeira interação que temos com cada um deles é eles recebendo uma chamada de uma empresa chamada “Death-Cast” avisando que dentro das próximas vinte e quatro horas eles estarão mortos.

Porque a história não é sobre o Plot
O autor fala que recebeu diversas críticas sobre o motivo dele dar spoiler do próprio livro de maneira tão óbvia. O motivo é simples, a história não é sobre o final. Nem tudo é sobre o plot, é na verdade sobre como se chega ao final. Nem todos os livros tem twists e tá tudo bem, nem todo livro precisa ter um final mirabolante e marcante que ninguém viu chegando, porque não é necessário que toda obra termine assim, nem toda história é sobre isso.
Adam Silveira nos trás um mundo futurista, mas não tão distante do nosso com um leve toque terrível e medonho. Ao meu ver os protagonistas seriam os filhos de nossa geração, e tem coisas comuns a nós e outras que num futuro próximo hão de ser comuns. Telefones e realidades virtuais são bastante presentes e de fácil acesso. A história se faz possível pelo mesmo dispositivo que a faz medonha "Death-Cast", esse programa que consegue prever a data da sua morte, não o momento ou a maneira somente o dia.

Isso cria diversos sentimentos no mínimo aterradores. Quando é feita a ligação com a anunciação da morte, é aconselhado a viver o dia da maneira mais completa possível. Tomar tempo para resolver as últimas coisas, realizar sonhos e de muitas maneiras causar a própria morte. Não só no caso dos que decidem tirar a própria vida como nos casos daqueles que por tentarem viver em vinte e quatro horas o que não viveram em muito tempo acabam causando suas próprias mortes.
É aterradora a ideia de viver em um mundo assim — em que toda ação pode ser a última. Mesmo assim sabendo que esse dia que vivemos será o último, o que faríamos? Se fossemos anunciados que estas seriam as últimas horas que teremos na Terra, choraríamos, faríamos reparações ou por uma última vez celebrariamos a vida? É por isso que os dois decidem, por uma última vez, descobrir os mistérios da vida.
Ao entrar num APP chamado “Last Friend — Último Amigo", os dois se encontram. O aplicativo dá a chance de conhecer alguém que como você também vive o último dia, ou somente alguém que deseja trazer conforto à alguém que está prestes a partir. Com o encontro dos dois temos a história. Sem um a história do outro seria drasticamente diferente, a sua maneira incompleta, o que me leva a pensar em que tipo de pessoas estamos colocando em nossas vidas, já que cada pessoa com quem encontramos causa tamanha mudança, cada um que passa por nossas vidas nus muda, nos molda e faz com que
Sobre o final, mas sem dar Spoiler
A história é incrível, como eu já disse simples, sem nenhuma grande surpresa ou mesmo um final poético, mas é uma história de personagens, como eles se comportam e se desenvolvem, é bonito sem ter um final que vai te manter acordado ou lutando pra entender. E às vezes é bom ler um livro assim. Mesmo que ele tenha um final decepcionante, afinal nossos protagonistas morrem no fim.
Ao se encontrarem, é bom que eles se dêem mais uma chance de viver, ou no caso de um deles a primeira chance de viver. Em um mundo em que sua morte há de ser anunciada é fácil se transformar em alguém paranóico e com medo de tudo, que viveu a vida inteira sem nunca viver de verdade, até que uma ligação lhe diz que toda a sua preocupação não valeu de nada e que mesmo tendo se privado de tudo você ainda vai morrer.
É meio trágico, muito trágico na verdade, imaginar que mesmo se privando de tudo o seu último dia ainda chegou quando você é novo e esqueceu de fazer coisas básicas da juventude como ir a festas, cantar e dançar com seus amigos e se apaixonar. É preciso que antes de partir a gente tenha a chance de ser beijado, abraçado e amado, e de beijar, abraçar e amar. Não é uma lista, mas uma experiência válida.
Mortes são mais tristes quando os jovens morrem. É como disse Clarice Lispector: a gente esquece que a gente morre e esquece de apreciar os morangos, as amoras e uma outra infinidade de coisas belas que a vida nos proporciona porque achamos que vamos ter tempo. “Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre, mas — mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.”
Postergamos coisas importantes porque acreditamos que ainda teremos a eternidade para vivermos, mas a verdade é que somente os deuses são imortais.
O confronto com a nossa própria mortalidade
Mas, sabe, não é nem sobre isso. Eu já sabia desde o início que eles morreriam, mas a forma que eles morrem é… decepcionante; eu já sabia que eles morreriam, desde o início, desde antes de comprar o livro e ainda assim quando eles morrem não trouxe finalização. Gosto de finais tristes e em aberto, mas ver alguém que eu segui por tanto tempo morrer ainda é triste.
Como eu já disse em um outro texto, não conseguimos diferenciar personagens de pessoas reais, então me despedir do Mateo e do Rufus, não porque eu acabei o livro, mas porque eles morreram, ainda foi difícil. Imagine como seria viver em um mundo em que as pessoas que amamos tem suas mortes anunciadas.
2020 foi o ápice da desconstrução da ideia de que somos imortais. Todas as nossas vidas foram ameaçadas, milhares de vidas foram perdidas e fomos abalados de diversas maneiras. Nós vimos os que amamos morrer e pouquíssimos de nós não perderam alguém da família, então eu creio que é possível se relacionar com essa ideia.

Apesar de ser um livro incrível que deve ser lido, eu nunca releria...
Quanto ao livro, eu não pude deixar de achar o final um tanto quanto decepcionante, é muito difícil falar disso sem dar spoilers, mas Adam Silveira constrói uma expectativa que simplesmente não é cumprida, além de subitamente acrescentar coisas que apesar de fazerem algum sentido, não são suficientemente fundamentadas e, embora não te peguem de surpresa, parecem um pouco forçadas — leia-se o romance.
Eu não sei se esse era um livro que precisava de um romance, não mudaria tanto a história se ele não acontecesse, pra mim ele podia ter acabado umas cinquenta páginas antes sem perdas, eu realmente sofri ao ler cada uma das partes românticas.
Muita gente na gringa falou que chorou horrores com esse livro, não vi o apelo. É um livro triste? Sim, mas não é nada que te deixe destroçado, na verdade pelo contrário as mortes vieram sem tanto impacto e uma delas eu tive que ler duas vezes pra entender que o cara morreu, isso talvez se dê pelo fato de eu tá lendo em inglês as uma e pouca da manhã.
De qualquer maneira é acima de tudo um livro Young Adult. Então não vá esperando nada muito complexo, nada contra esse tipo de literatura, mas por ter passado tanto tempo lendo os clássicos e outros tipos de literatura consideradas mais complexas quando eu volto a ler YA’s eu sinto às vezes como se o autor estivesse achando que eu sou burro ou que eu não me importo com detalhes.

Algo que me irritou muito no livro é não ter a explicação de como caralhos o “Death-Cast” funciona, okay, eu sei que não é informação pública, mas a gente acompanha os pensamentos de algumas pessoas que trabalham para empresa e ele também não sabem como funciona, custava dedicar não sei, dois parágrafos só pra ter uma ideia de como funciona?
Por outras vezes parece que o autor não ousou seguir por linhas mais complexas e arriscadas, especialmente no final do livro que ele poderia ter aprofundado o romance e aberto a conversa para temas mais polêmicos, e assim fazer o romance de alguma forma relevante pra história, desculpa se você gosta de romance em todos os livros, mas alguns não me dessem.
Mas quem sabe talvez o problema seja eu. Se eu tivesse lido o livro quando ele foi lançado, final de 2018, eu teria apreciado mais, era mais o meu tipo de livro a época embora eu estivesse marchando para um momento que foi mais leitura de clássicos da minha vida. De qualquer maneira eu descobri esse livro, não sei nem como, em 2018 e esperei mais de dois anos pra finalmente dizer: eu não sou obrigado, vou comprar em inglês mesmo, pra uns poucos meses depois a bonita da editora finalmente decidir publicar o livro no Brasil.
E assim eu sei que parece existir um distanciamento do meu posicionamento anterior pro que eu acabei de dizer, mas é porque existem coisas que me irritaram profundamente. Ainda assim eu gostei do livro, eu recomendaria, mas não leria de novo. De qualquer maneira, não vou falar que é o melhor livro que eu li na vida, mas também não é o pior. É um livro bom, mas que eu dificilmente estarei lendo de novo.
De qualquer maneira, você pode ter lido ou estar super ansioso para ler e vai funcionar pra você, não julgue o livro pela capa ou mesmo por mim, ame-o, odei-o ou sinta por ele algo no meio, mas leia-o, é um bom livro, só não funcionou pra mim.
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Me diz o que você achou, se você tá ansioso pela leitura ou só me xinga e fala que esse é o livro da sua vida, eu sou grandinho eu aguento!
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Sobre o autor:
Pedro Vieira
Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.




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