Uzumaki: A Espiral Que Se Afunila | Resenhas
- Pedro Vieira

- 25 de set. de 2021
- 3 min de leitura

"Uzumaki" significa espiral, linha curva que sem se fechar se afasta de um ponto de forma progressiva regular e possivelmente eterna.
Os espirais, no geral, estão associados à evolução, ao yin e yang, à morte e ao renascimento. Tudo isso é subvertido por Junji Ito, autor e ilustrador do mangá Uzumaki — A Espiral do Horror. Continue lendo esse artigo para que você também se perca nessa espiral.

Kirie (a menina na foto acima) e seu namorado Shuichi (o rapaz ao lado) são os protagonistas dessa trama. Ambos são profundamente afetados pelos efeitos da espiral, assim como todos os outros moradores de Korûzo-cho, uma pacata cidadezinha na costa japonesa.
Os pais de Shuichi são os primeiros a serem afetados pela espiral. O pai ao se apaixonar pelas espirais, tanto que se torna uma, e sua mãe que cria um profunda e total repulsa por espirais e decide se livrar de todos os espirais em sua vida, incluindo aqueles nela mesma, o que é insano já que muito do que nos rodeia é formado por espirais.
De nossos redemoinhos de cabelo e cachos a nossas digitais, da cóclea, parte do ouvido interno, a proporção áurea que nos rodeia de tantas formas que nem entendemos.

Depois dos pais do Shuichi diversas outras coisas estranhas começam a acontecer. A fumaça dos corpos cremados se comporta de maneira estranha, as pessoas começam a ouvir vozes, se transformar em caracóis, morrer e se transmutar das mais horrendas formas, sempre envolvendo a espiral. Num grande e eterno círculo concêntrico que se afunila. A própria geografia do local propicia o surgimento da espiral, o desenho das ruas antigas e as montanhas e o mar formam uma área quase circular para permitir o desenvolvimento da cidade.
Influências


É possível ver grandes influências de artistas ocidentais na obra do autor que se demonstram no mangá. Salvador Dalí com seu surrealismo pode ser percebido nos traços, a grande presença de formas turvas e espiraladas também me fez lembrar de Van Gogh.
Em termos de escrita ele se diz influenciado por H. P. Lovecraft, o que faz muito sentido toda a ideia do Cosmicismo, o Horror Cósmico. Os problemas com os quais as pessoas de Korûzo-cho são submetidas são causados por uma entidade superior maior do que todos eles e não há nenhuma divindade aparente que os possa ajudar.
E se existe algum ser superior além da Espiral este ser é indiferente, o divino simplesmente não se importa o bastante para mudar algo. Eu também senti uma forma e um padrão um tanto quanto kafkaniano. Assim como nos romances de Franz Kafka os personagens são jogados de cabeça numa situação claustrofóbica, traumática e desesperadora da qual não se vê nenhuma saída aparente, um eterno espiral que se afunila até que não sobra nada senão a loucura.

O horror e terror da história se dão pelo fato de que é tão desconfortável ver as imagens, as ações e os pensamentos que você se sente tão deslocado e desconfortável quanto eles.
A loucura cíclica
O mangá segue um formato quase antológico pela maioria do tempo, a maior parte dos capítulos do meio da história em que personagens são desenvolvidos têm seus próprios começos, meios e fins, embora sigam uma linha cronológica aparente. No fim as coisas escalonam a proporções gigantescas simplesmente inimagináveis.
O final é surpreendente e obviamente cíclico, espiralado, a espiral é bastante metafísica. O final remonta ao começo e é aí que ou tudo se encaixa ou se perde de vez, já que nós mesmos estaremos envolvidos e hipnotizados pela espiral. É simplesmente magnífico

Uzumaki é um mangá de poucos capítulos, 19 e um extra para ser exato, e dá pra ler em um dia de maneira ininterrupta e na verdade você vai querer lê-lo dessa maneira, de certa forma a história também é como um espiral, uma progressão crescente que nos hipnotiza, e se você tiver sorte vai ser também seduzido pela Uzumaki.
Se você já leu a obra, pretende vê-la ou simplesmente sentiu total repulsa por ela, conta pra mim.
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Sobre o autor:
Pedro Vieira
Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.




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