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Matrix Ressurections: análise crítica | Resenha

Matrix 4 chegou aos streamings, e enfim pude ver o filme na tranquilidade de minha casa. Eu assisti algumas vezes, e revi mais uma vez após ouvir algumas críticas e ver outras análises. Mesmo assim minha opinião não mudou. Lembrando que o texto a seguir está repleto de spoilers, então se ainda não assistiu a Matrix Ressurections, pausa a leitura, vai lá e volta aqui que depois a gente conversa.

A franquia Matrix, como todos sabemos, é um clássico maravilhoso e um marco para a história do cinema. Seja por alguns efeitos especiais que Matrix nos trouxe, seja pela narrativa das irmãs Wachowski, com suas toneladas de referências filosóficas ou metáforas à nossa sociedade e ao cotidiano.

Esse texto se seguirá, partindo do pressuposto de que o leitor já assistiu e se lembra dos três filmes anteriores.
Para resumir meu panorama, esse filme traz todas as consequências de Revolutions e ao mesmo tempo se conecta ao primeiro filme com diversas referências.




O enredo.


O filme mostra o que aconteceu com Neo, Trinity e Morpheus depois dos acontecimentos da revolução do filme três. Como sabemos, Neo e Trinity morreram no filme que antecede a esse. E em Ressurections, foram reconectados a Matrix, e para que isso acontecesse eles tiveram que ser ressuscitados, daí o título do filme, talvez.

Para que ambos fossem reconectados, tiveram de ser reconstruídos. Os olhos de Neo foram refeitos e Trinity foi revivida e seus ferimentos curados. Durante os acontecimentos iniciais do filme, ficamos nos perguntando por qual motivo eles estão de volta à Matrix, e vivos. A resposta vem logo à frente quando as máquinas descobrem que Neo e Trinity produzem mais energia juntos do que grande parte da safra de humanos.

Quando o programa ativa as emoções do casal, a produção de energia aumenta consideravelmente. Isso faz com que ambos tenham uma localização exclusiva no campo de cultivo. Uma imensa torre para armazenar e coletar a energia dos dois.

Como eu citei no início, esse filme tem muitas referências ao primeiro. Neo é despertado novamente, e para isso todo o lance das pílulas acontece de novo, acordando no mundo real, treinamento com Morpheus e etc. A problemática do filme se desenvolve no fim do primeiro ato, quando Neo percebe um segundo berço próximo ao seu, no momento em que desperta. Concluindo ser Trinity ele então traça um plano para despertá-la e trazê-la para o mundo real. Obviamente isso enfurece as máquinas que não querem perder suas maiores fontes de energia.

E aqui entra o tempero de todos os filmes de ação. Tiroteio, perseguição, morte, lutas etc. Até que a conclusão que ninguém esperava surpreende a todos. Trinity agora sabe voar e se descobre com os mesmos poderes de Neo, ou até maiores eu diria. E o fim é tão irrelevante que não interessa.

O que tem de bom?




Matrix é um dos melhores filmes do gênero ação, contudo, diferente de outros filmes do mesmo gênero, este tem a tradição de carregar um porção de críticas sociais e pontos de vista peculiares, que valem uma discussão mais profunda, sobretudo da nossa relação com a tecnologia. Isso aconteceu bastante com o primeiro filme da franquia.

E como era de se esperar, nesses 20 anos de intervalo entre lançamentos, a linguagem do filme se atualizou junto com a revolução tecnológica que o século 21 trouxe, bem como a maior parte das discussões sociais que estão em pauta atualmente.

Um bom exemplo disso é a metalinguagem presente no filme. Sabemos que Matrix é um programa/realidade virtual, que serve para manter os humanos sob controle. Contudo em Resurrections, além desse significado, Matrix é tratado com uma obra de ficção, no caso um jogo e não um filme. E como o filme fala do jogo de mesmo nome, a crítica aos grandes estúdios e ao próprio capitalismo quase grita na nossa cara, nos seguintes aspectos:

Muitas vezes grandes produtoras de conteúdo quando tem uma boa história, não basta que um filme seja lançado, mas parecem espremer para que saia algo mais de uma coisa que já é completamente suficiente por si só. Sinceramente não precisava existir mais nada além do primeiro filme Matrix, pois ele conta uma história completa, fechada em si mesma, sem a necessidade de mais desdobramentos, mas mesmo assim surgiram mais três filmes.

Essa crítica é bem visível nas cenas da reunião para o lançamento de um novo jogo de Matrix. Durante o brainstorm, cada membro da equipe quer impor uma ideia mais maluca que a outra, se baseando no que fez mais sucesso nas edições anteriores. Mas todos ali, têm o mesmo foco. Dinheiro e sucesso.

Outro ponto positivo, está no papel feminino no filme. Talvez eu não esteja no meu “lugar de fala”, mas posso relatar o que percebi. Mesmo que Neo seja o protagonista foi dado bastante relevância para Trinity, que também sempre foi protagonista mas na maioria das vezes estava como suporte de Neo e não de fato na linha de frente como nesta obra. A expressão “girl power” cabe muito bem aqui. Como por exemplo:

Quando Trinity descobre seus poderes e começa a voar, ela carrega Neo pelos ares e o salva. Nesse momento os papéis se invertem e quem depende de Trinity agora é Neo e não o contrário.

Bem próximo do fim quando ela chega até o Analista de forma épica. Voando com o sobretudo ao vento, óculos escuros e soca a cara dele com uma força absurda. Até soltei um palavrão quando vi essa cena. Enquanto o Analista apanhava ele diz algo como: “Você não consegue controlar ela?” Neo está em outro canto do cômodo sem dizer nada apenas rindo da cena e talvez pensando: “como se ela precisasse de controle”. Mais um aceno à máxima em nossa sociedade, de que homens controlam suas parceiras e estão acima delas, como se fossem sua propriedade. No meu entender Trinity está muito mais poderosa que Neo nesse filme.

Outra ocasião em que isso acontece é o momento da cafeteria. Neo e Trinity conversam sobre suas vidas, o clássico assunto entre pessoas que estão flertando. Trinity ou Tiffany, no caso, diz que se acha parecida com a heroína Trinity e quando ela contou isso ao seu marido ele riu dela. Aqui vemos como as mulheres são tratadas na sociedade por seus parceiros. E como a Matrix é um programa bem construído em paralelo com a realidade.

O que não é tão bom assim?




Como eu já citei no início, esse filme revisita as outras obras da trilogia em vários aspectos. Contudo, cada citação ou referência de um filme anterior, vem acompanhado de um flashback com a cena do filme citado. Talvez isso aconteça por dois motivos: ou estamos vendo as memórias de Neo, diretamente da cabeça dele, ou a produção do filme pensa que não assistimos, ou não nos lembramos dos filmes anteriores.

Outro ponto em que minha atenção se focou foi a troca de alguns personagens. Sem desmerecer a atuação dos escolhidos, que diga-se de passagem são excelentes atores, mas superar Hugo Weaving e Laurence Fishburne é um trabalho para muito poucos. Ainda mais quando os atores se encaixam perfeitamente em seus papéis, causa uma certa estranheza ver outros no lugar. O roteiro explicou muito bem o porquê da troca, muito bem justificado, mas mesmo assim não me convenceu.

Agora uma das coisas que me deixou não decepcionado, mas irritado. O Merovíngio. Ele foi um personagem tão bacana no segundo filme, desperdiçado e com um potencial enorme. Pelo visto, o que marcou mesmo foi sua paixão por xingar em francês. Quando vi o trailer e um vislumbre dele aparece, ora bem vestido e por um segundo, sujo e abandonado, pensei: “vão aproveitar ele melhor dessa vez”. Me enganei, ou melhor, me enganaram. Ainda assim, Merovíngio tem um dos melhores nós de gravata que já vi.

Pra piorar, pegar balas com a boca ficou ridículo. A maneira como Neo para as balas com as duas mãos espalmadas também é ridículo, seria muito melhor se mantivesse o clássico movimento simples sem muito esforço. E aquele poder dele que parece um Hadouken também não ficou legal.

Veredito.


Gostei do filme no geral, tem seus defeitos como qualquer filme. Me trouxe várias lembranças e uma nostalgia agradável que só Matrix tem. Claro que poderia ser melhor. Matrix me parece uma laranja. No primeiro momento dá pra extrair muito caldo, mas à medida que o tempo passa, se continuar espremendo já não dá tanto resultado. O suco sai mirrado em pouca quantidade. E se tentar espremer o bagaço, se torna um serviço inútil, mas ainda assim tem quem consuma isso.

E você? Acha que eu exagerei em alguns pontos, diga pra nós nos comentários.



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Sobre o autor:


Vinicius Ramos


Jornalista, apaixonado por cultura pop, quadrinhos, cinema e literatura fantástica. Tem o hábito de escrever diariamente, dormir pouco e cuidar de árvores pequenas.

Goiano e goianiense, gosta de discussões longas, e animes complexos."



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