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Primavera de Cão: De Volta a Tempos Que Amamos | Resenhas



*O texto contém spoilers de Primavera de Cão de Patrick Modiano.

*O texto pode conter spoilers de Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust.


Os livros que lemos permanecem conosco. Ler um bom livro é como fazer um amigo, nos unimos ao protagonista de tal maneira que com ele choramos, amamos e morremos.


Não conseguimos diferenciar personagens de pessoas reais, e é por isso que choramos quando eles morrem. Pessoalmente passei por isso mais vezes do que posso contar, esse sentimento de amar tanto alguém que eu sei que não existe, de me importar com alguém que no fim morre e eu me deixo passar por todos os estágios do luto. Me pergunto se assim como eu você não passou por isso, de passar noites se preocupando com um ente literário.


Um livro puxa o outro


Recentemente ao me aventurar na gigantesca obra de Proust, e junto a Marcel buscar o tempo perdido eu me recordei de um livro que eu tinha lido a mais de um ano, que não foi tão impactante quando eu li, mas agora ao relê-lo eu não pude deixar de perceber que eu desejava apresentar ao meu novo amigo um velho amigo.


Primavera de Cão nos apresenta a um narrador sem nome, um jovem parisiense que faz um amigo em 1964. O livro nos é narrado por este homem, relembrando alguns acontecimentos vinte e oito anos depois, em 1992..


Muita coisa mudou nesse período Pessoas nasceram, outras morreram, sonhos foram realizados e amizades foram perdidas.


Mas nem sempre vinte e oito anos são necessários para que isso aconteça, a pandemia veio, entre muitas coisas, para provar pra gente que não somos eternos. E quantos não perderam tantos e de maneira tão rápida?

Robert Capa, amigo de Francis Jensen


Modiano tem muitos temas neste livro, a ocupação nazista, a fotografia, amores perdidos, a memória, como o tempo é cruel e como ele nos muda, muitos temas que são recorrentes por toda a sua obra, — mas pra mim aquele que é talvez o menos intríseco dos temas é o que mais me afeta: acima de tudo esse é um livro sobre fazer e perder um amigo. E quantos amigos eu não perdi?


O livro é quase um ode à amizade e nos moldes de outros conta a história de alguém sob a perspectiva de outro. Nem todos nós vivemos vidas incríveis que devem ser contadas, mas talvez sirvamos para eternizar as histórias de outros. É essa a relação do narrador com Francis Jansen, a história não é sobre quem nos fala, mas sobre esse outro homem que foi prisioneiro de guerra, amigo de Robert Capa, que fotografou maravilhas, que amou e foi amado, enfim, que viveu.


Mais do que só personagem


Francis Jansen, assim como Robert Capa, foi um homem real. E eu me pergunto se a admiração do narrador pelo homem não é a de Modiano por ele, e talvez Modiano seja o narrador, afinal eles teriam a mesma idade em 1964, mas com ele é difícil de saber, a história real do autor se perde com a dos personagens.


E nisso, também, ele me lembra Marcel Proust, sua história se perde tanto com a de seu personagem que eles chegam a compartilhar o mesmo nome. E ambos os personagens buscam recuperar o tempo perdido.


Apesar da gritante diferença de idade, creio que se tivessem se conhecido o Narrador e Marcel seriam grandes amigos, isso considerando o pouquíssimo que li sobre Marcel. Gostaria de conhecer os dois enquanto meninos e eu mesmo sendo menino gostaria de brincar com eles, envelhecer com eles. É uma pena que algumas pessoas não existam no nosso plano de realidade.


Não sei o quão recorrente isso é na obra de Patrick Modiano, nos dois livros que li isso acontece muito. Existe um vaguear por Paris e caminhar pela cidade de um ponto aleatório a outro desconhecido. Paris é mais que cenário para os franceses, a cidade por diversas vezes é quase personagem, na obra de Modiano isso é elevado a outro nível, em outro de seus romances “Flores para Ruína” a cidade é tão importante que sem ela ou não haveria história ou ela seria completamente diferente. Os personagens perambulam pela Cidade Luz em busca de imagens e sombras perdidas na aurora do tempo. Há quem não goste, ache esse vaguear sem sentido enfadonho, eu acho magnífico. Essa busca pelo que aconteceu e as dúvidas sobre si mesmo descrevem alguém amargurado, confuso que ainda não entendeu seu lugar no mundo, não poderia me identificar mais.


Parafraseando Carla Bruni: o tempo é malvado, curte o nosso sofrimento. E talvez seja verdade, para os gregos o deus Tempo, Cronos, era um dos mais cruéis. Cruel a ponto de só para nos ver sofrer acelerar e retardar o tempo, só para que nossos prazeres sejam mais breves e nossos sofrimentos quase eternos.



"E talvez desejemos

Tanto

Recuperar o tempo que perdemos

Já que quando envelhecemos

É quando

Finalmente entendemos

Que não somos eternos.


Não somos eternos"

— Pedro Vieira


El Colosso - Francisco Goya

Não é possível voltar no tempo


O Narrador não recupera o tempo, seu amigo se foi e dele ele nada mais sabe, mas as memórias permanecem ficam conoscos quando às vezes delas nem mais nos lembremos, não até que achemos uma foto ou simplesmente porque primaveras às vezes se parecem ou porque molhamos nossos biscoitos no chá.


Freud ou alguém deve saber como se desenvolve a memória, para nós basta saber que às vezes um gesto, um acontecimento, um cheiro ou um gosto nos leva de volta a tempos que amamos tem de ser o suficiente.


No outro dia comi um magnum, costumo tomar sorvetes e não picolés, então fazia muito tempo, peguei aquele que eu achei que era o que eu costumava comer na infância. O barulho da embalagem, o cheiro, o gosto me transportaram por tantos quilômetros e anos de volta para aquela escola grande, naquela cidade pequena do Rio de Janeiro. Sempre que lembro da minha infância lembro do meu atual observando o eu criança. Eu vestia shorts e a camiseta do colégio, era um dia quente e eu decidi comprar um picolé, comprei o mais bonito, e daí que era o mais caro, eu ainda não entendia de dinheiro. Abrir o pacote e quebrar o doce chocolate. Se você pudesse me ver enquanto escrevo saberia que eu sorrio.


Não é uma memória profunda, não há ali nenhum trauma ou grande formação a ser explorada, creio que nenhum psicólogo dedicaria muito tempo a ela, mas foi o suficiente pra me fazer sorrir num dia triste e é isso que importa. Mais uma vez me pego questionando como você se sente sobre isso, o que desencadeia a sua memória? Conta pra mim nos comentários.



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Sobre o autor:


Pedro Vieira


Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.




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