Por que os cinéfilos passaram a odiar filmes de terror? | Análise
- Matheus Balbino

- 16 de out. de 2021
- 3 min de leitura

Vira e mexe, vejo a comunidade cinéfila reclamar do quanto o cinema de terror* é subestimado nas grandes premiações. E, realmente: em 94 anos de Oscar, por exemplo, só 6 títulos do gênero foram indicados, contando com 1 vencedor. Mas, ao contrário do que bradam por aí, o terror parece não estar sendo subvalorizado apenas pela alta cúpula de Hollywood, mas também pelos próprios cinéfilos.
A começar pela discussão, que só é suscitada quando algum filme de terror indie, arthouse (A24, cof, cof), espertinho, entra em evidência e toma uma esnobada. É como se o terror mainstream, de abordagem mais direta, nem fosse digno de debate. Essa é a herança do “pós-terror”.
Segundo o jornalista Steve Rose, em um artigo polêmico do The Guardian, o “pós-terror” consiste em um subgênero que busca se distanciar das principais convenções do cinema de terror. Ou seja, nada de monstros, sustos, sangue, assombrações e fantasmas. Aqui, só defendemos a sugestão, os espaços vazios, a perturbação psicológica e a abordagem sóbria e realista. Seja conceitualmente ou etimologicamente, o termo é uma besteira, afinal, não é de hoje que o terror conta com essa abordagem mais sugestiva, implícita e psicológica, além do que, o prefixo “pós”, no termo, sugere a recusa e a inovação do terror, o que também não é verdade.

Esse malabarismo argumentativo é esnobe. A ânsia em diferenciar tais produções “artísticas” dos títulos mais populares acaba esquecendo que o fascínio do gênero encontra-se justamente em sua capacidade de englobar tanto o entretenimento massivo quanto sua experimentação e transgressão da linguagem.
Sim, o gênero conta com muitas convenções que, reproduzidas à exaustão, acabaram criando um padrão, um lugar comum que resultou em uma enxurrada de porcarias lançadas nas salas de cinema. Mas isso, aparentemente, acabou criando uma aversão do cinéfilo aos códigos básicos do gênero, resultando na tentativa de constantemente distanciar um filme da alcunha do terror. Por isso, é comum vermos os termos “horror como veículo” ou “horror elevado”, insinuando que o terror é um gênero simplório, incapaz de construir discussões relevantes ou subtextos mais “profundos”.
Também parece que nós, como audiência, perdemos a habilidade de nos deslumbrarmos diante da farsa. Stephen King, em seu ensaio “Dança Macabra”, comenta que “só conseguimos nos sentir realmente confortáveis com o terror na medida em que podemos ver o zíper subindo às costas do monstro”. Mas, agora, o medo só é válido quando envelopado pela verossimilhança: visual sóbrio, atuações realistas e trama pretensamente densa com um enxurrada de simbolismos e metáforas - mesmo que óbvias. A violência escatológica, os personagens histriônicos ou a abordagem frontal perderam força, não são críveis e, portanto, invalidados dentro do gênero.

Longe de mim querer eximir a culpa dos grandes estúdios: tem muito filme ruim saindo por aí mesmo. O que estou propondo é a não generalização das convenções do horror, gerando um pré-conceito do filme por sua (não) utilização, ou julgando-o pela sua frontalidade. Um filme de terror não é ruim por recorrer a jumpscares ou possuir personagens estúpidos. Um filme de terror é ruim quando não possui nenhuma relação específica com a linguagem cinematográfica. Nem toda ameaça precisa ser uma grande metáfora para a depressão. Às vezes o demônio com patas de bode pode ser só um demônio com patas de bode mesmo. Não podemos, em hipótese alguma, ignorar que os maiores mestres do terror nunca tiveram medo de mostrar seus monstros.
Não me entendam mal, eu adoro os filmes da A24. Mas a verdade é que Ari Aster e Robert Eggers não inventaram a roda.
*Acho importante salientar que este texto se refere ao cinema de terror estadunidense, visto que os filmes de outras nacionalidades - europeus e asiáticos, por exemplo - que se sobressaem e chegam na bolha cinéfila a qual me refiro, geralmente já possuem essa veia artística forte.
_______________________________________________________

Sobre o autor:
Matheus Balbino
Entre a faculdade de publicidade, o estudo do cinema e a produção audiovisual, exorciza histórias e cria inquietações.




Comentários