O tempo, a arte e a banalidade um retrato do Mundo Flutuante | Kazuo Ishiguro | Resenhas
- Pedro Vieira

- 13 de out. de 2021
- 6 min de leitura

Recentemente cheguei à conclusão de que estou lendo muitos livros semelhantes. Quase todas as minhas últimas leituras são sobre o tempo, a memória e o que a desencadeia. O mais interessante é que isso foi feito de maneira totalmente inconsciente, não planejei escolher livros sobre o tempo, dois deles foram escolhidos meramente pelo autor e ainda assim por algum acaso divino falavam sobre o tempo.
Percepção do tempo
Não existe um conceito de diferenciação temporal pra gente como existia para os gregos. Os helênicos entendiam o tempo em duas formas. Chronos, o tempo corrente, o tempo que pode ser quantificado, e Kairós que é o tempo oportuno e que não pode ser medido. Nos debatemos entre esses dois conceitos, tentamos capturar kairós enquanto fugimos da maldade de cronos e no fim da vida compreendemos que deixamos de ver o belo pra abraçar o mundo, só entendemos as oportunidades quando cronos já tirou demasiado de nós para que possamos aproveitá-las.

“Um Artista do Mundo Flutuante” é talvez o mais primoroso dos livros que eu li sobre o tempo e certamente pende mais para aquilo que poderia ser entendido como obra com valor literário, embora eu não goste muito desse termo, ele às vezes se faz necessário; o que eu quero dizer é que essa é uma obra que claramente não é comercial, o que no geral me agrada bastante. De maneira consciente ou não, o autor nos leva a contemplar o conceito de tempo oportuno versus tempo corrente ao relembrar a história de vida de Masuji Ono.
Masuji Ono, além de protagonista, é também o narrador da história, que nos é contada numa mistura de relato direto ao leitor com fluxo de consciência. Ono é um homem japonês que fez parte da máquina governamental durante o período da Segunda Guerra Mundial, fazendo pinturas de guerra para eles. Infelizmente, para ele, o eixo perdeu a guerra, o que quer dizer que os seus atos que antes eram louváveis se tornaram no mínimo questionáveis, se não criminosos na visão de muitos. Contudo a história não acontece nesse momento de sua vida: encontramos o Senhor Masuji anos depois de findada a guerra, quando ele já está aposentado e refletindo sobre a vida.
Começamos o livro de uma maneira elegante, quando o nosso narrador abre o livro falando de sua casa. É uma maneira no mínimo inusitada de se abrir um livro, livros tendem a ser abertos de maneira que te impulsione a desejar ler o resto da história. Esse não faz isso, na verdade ele começa contando a história de outro homem, Akira Sugimura, o homem que construiu sua casa. Ele continua falando sobre a sua casa, o estranho processo de compra ao qual ele foi submetido, um leilão de prestígio, os danos que a casa sofreu durante os bombardeios da guerra e as reformas que ele empreendeu durante os anos que antecederam o começo da história, qualquer um teria dificuldade em crer que dali virá uma grande virada que revolucionará as nossas vidas, não há um plot claro logo de início. O livro brinca com o conceito imediatista de esperar que as coisas aconteçam nos nossos termos, ao começar o livro com uma descrição é no mínimo ousado, vai contra os conselhos de escrita best-sellee, não costuma prender o leitor, mas de alguma maneira ele consegue fazer o que muitos diriam como impossível.
Ele fala da visita da filha mais velha e das negociações de casamento da filha mais nova, brinca com o neto, viaja, caminha, cuida do jardim e se lembra. O livro não tem capítulos, o máximo que se tem é um parágrafo duplo no meio do texto e a mudança de assunto; ainda assim temos quatro partes, os meses em que ele se lembra. Outubro de 1948, Abril e Novembro de 1949 e Junho de 1950. É um livro de memórias, basicamente, e ainda assim ele termina de uma maneira radicalmente diferente da que começa. Era esperado que ele terminasse o livro como ele o começou, lembrando de algo que aconteceu, mas ele termina da forma mais oposta possível a memória: esperança de um futuro.
“Nossa nação, ao que parece, quaisquer que tenham sido os erros do passado, tem agora outra chance de aproveitar mais as coisas. Só se pode desejar o bem para esses jovens.”
Ao terminar de ler o livro meu único sentimento era o de graça, de conhecer o que Ono não sabia, que o Japão conseguiu dar a volta por cima, se tornar a terceira maior economia do mundo, um país a ser usado como referência de superação e modernidade. Ainda que dependente em algumas maneiras dos EUA, mas ainda assim me pergunto se não foi melhor assim pra eles. Em nome da juventude esquecemos os erros do passado, em nome da esperança perdoamos aqueles que nos mataram.
A fragilidade do mundo flutuante
Durante o período Edo no japão houve um movimento artístico, um gênero de xilografia e pintura conhecido como Ukiyo-e desse movimento foram pintadas algumas das mais tradicionais pinturas e xilogravuras que nós, ocidentais, associamos ao Japão. Sendo talvez a mais importante delas “A Grande Onda de Kanagawa” ou simplesmente só A Onda.
A Onda

O nome Ukiyo-e pode ser traduzido como “retratos do mundo flutuante” e era uma espécie de arte de apreço popular, retratava a beleza feminina, o teatro, os lutadores de sumô, paisagens, lendas populares, viagens e a pornografia. Nada contra o mundo flutuante, mas ele é supérfluo. Um artista do mundo flutuante se distanciaria da realidade, se perderia dela e consequentemente teria uma visão no mínimo limitada do mundo ao seu redor, Matsuda um dos amigos do protagonista o critica por isso, por ele ser um dos artistas que não se preocupa com influência que a sua arte tem para o mundo, que se deixa levar pela beleza transitória do mundo flutuante. Essa conversa, entre outras coisas, o leva a ser acometido da terrível doença da juventude: a ideia de ser imortal, invencível, essencial e o sonho de mudar o mundo; coisas loucas essas que pretendemos nós jovens. Dessa maneira ele rompe com seu professor à época e vai atrás de seu sonho, de ser relevante para que o Japão do futuro fosse maior do que ele era no seu presente e por um momento ele consegue isso, mas aí vieram as bombas e o Japão perdeu a guerra.
É preciso que quebremos o mundo flutuante para que possamos aproveitar o mundo real, para que possamos mudá-lo devemos descender do delicado mundo flutuante. Devemos buscar as belezas do mundo flutuante, contudo é importante que tenhamos ciência de que elas são transitórias. Eu poderia tentar explicar o que é o mundo flutuante por muito tempo, mas creio que ainda seria incompleta a minha análise, sendo assim deixarei Kazuo Ishiguro, o autor, fazer isso:
“As melhores coisas (...) se juntam durante a noite e desaparecem pela manhã. O que as pessoas chamam de mundo flutuante (...). A melhor beleza, a mais frágil, que um artista pode ter a esperança de captar flutua dentro daquelas casas de prazer depois que escurece. E em noites como estas, Ono, alguma beleza dessas flutua aqui pelas nossas salas.
Desconfio que eu não conseguia celebrar o mundo flutuante porque não conseguia celebrar o mundo flutuante porque não conseguia acreditar em seu valor. Jovens muitas vezes se sentem culpados por causa do prazer e creio que eu não era diferente. (...) É difícil apreciar a beleza de um mundo quando se duvida de sua própria validade.”
Trecho do livro página 164
Os amantes dos prazeres se deleitam em seus momentos e aqueles que não conseguem descansar a mente se mantêm firmes na crença de que mesmo os mais flutuantes dos mundos eventualmente voltam ao chão. Não sei quais deles são mais loucos.
A memória também é flutuante
O fluxo de consciência dá um toque de beleza ao unir os dois temas tão importantes para a obra. O tempo, ou no caso a memória, funciona de maneira não linear e mescla as histórias, acrescentando detalhes a coisas ditas antes, a maneira como tudo ocorre, os mais simples acontecimentos desencadeiam memórias inteiras, como na grande obra de Proust, só que de maneira mais concisa.
O tempo não volta ou para pôr ninguém. Cronos é cruel e tem profundo desprezo pela humanidade, acelera o tempo nos momentos de prazer e o arrasta nos períodos de tédio e de dor, para que nossas dores durem uma eternidade e os prazeres sejam breves. Por isso devemos aproveitar os prazeres. Contudo, pelo tempo não ser infinito devemos ter cuidado para não nos perdemos neles.
E pode parecer contraditório, mas é verdade. De qualquer maneira o tempo é contraditório, então me seria impossível falar dele sem sê-lo. Nos perdemos nos reinos da memória, o reino de Mnemosine sempre há de ser misterioso para nós, e para mim sempre terá ao menos um toque de beleza e de misticismo.
É extremamente difícil falar qualquer coisa sobre esse livro sem dar spoiler, ele não tem exatamente uma história linear a ser contada e ele simplesmente não é sobre o final. O plot é a menor das preocupações do nosso narrador, afinal ele é apenas um velho vivendo seus últimos dias e lembrando de tempos melhores.
Masuji Ono é outro do que eu reuniria para falar sobre o tempo. A mesma coleção de personagens que eu mencionei na resenha de “Primavera de Cão” junto a Marcel e ao Narrador eu me sentaria com ele e só os ouviria falar. Enquanto ocidentais não damos o devido valor à fala dos mais velhos, aqueles que já viveram mais do que nós tem muito a nos ensinar sobre a vida e as oportunidade que Kairós nos dá.
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Me é impossível falar com Masuji, Marcel ou com o Narrador, mas se você me permitir gostaria de falar sobre o tempo com você, deixe nos comentários um pensamento seu sobre o tempo.
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Sobre o autor:
Pedro Vieira
Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.




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