O espírito Canadense Numa Casca de Noz |Come From Away | Análise
- Pedro Vieira

- 26 de nov. de 2021
- 5 min de leitura
Os canadenses, como um todo, são educados. Muito educados, tipo é piada o quão educados eles são. Eles são irritantemente educados, no nível de pedir desculpas quando passam por você na rua. Para os padrões brasileiros eles seriam considerados frios, ou talvez nós que sejamos muito calorosos, amigáveis e dados. Apesar da aparência fria eles são um tanto quanto acolhedores, num país que só funciona por causa dos imigrantes meio que tinha que ser.
A alguns anos tive a oportunidade de ir estudar lá e durante o meu período de estudos tive a chance de realizar outro sonho ir a um musical da Broadway. Não foi exatamente na Broadway, já que ele estava sendo montado na Younge Street em Toronto, contudo a experiência foi maravilhosa esse musical de chamava Come From Away. Que recentemente, após a reabertura dos teatros em Nova Iorque foi gravado e disponibilizado no Apple TV.

Esse é um musical diferente dos quais eu estava acostumado. Ao contar uma história real, e não qualquer simples história real. Nos levar de volta aqueles que foi um dos momentos mais tensos do mundo, quando heróis e vilões foram separados, um momento mudou para sempre o mundo. Que evento foi esse? O atentado ao World Trade Center.
Contexto histórico
11 de Setembro de 2001 foi sem dúvidas um marco. O mundo nunca mais foi o mesmo, como alguém que nasceu depois dessa era o mundo é mais difícil, mas eu não consigo entender as suas diferenças. Embarcar num avião é complexo, existe uma série de procedimentos que são no mínimo chatos, e por vezes invasivos. É um mundo mais temeroso, mais triste… Fomos expostos a nossa fragilidade.

Quando os aviões colidiram com o World Trade Center, o Pentágono e o chão da Pensilvânia o mundo segurou a respiração por um momento. A comunidade da cidade de Toronto se preocupou em serem os próximos a serem atacados, brasileiros se questionavam o que estava acontecendo, o mundo se desesperou, quebrou e acima de tudo se preocupou, principalmente com as centenas, senão milhares de outras aeronaves que cruzavam os céus naquele momento. O que fazer com a miríade de aeronaves que estavam no espaço aéreo americano? Cada uma delas era uma ameaça em potencial, eles ainda não sabiam se tinha sido um ato de terrorísmo doméstico, ou internacional.
Aviões foram direcionados ao aeroporto mais próximo, muitos que estavam cruzando o Atlântico voltaram para a Europa, contudo alguns estavam longe demais para dar meia volta, dezenas de voos direcionados a um local que nas horas anteriores tinha completamente fechado seu espaço aéreo, dessa maneira onde mandar todos esses aviões? Começou a Operação Yellow Ribbon. Diversos aviões com destino aos Estados Unidos pousaram no Canada, Vancouver e Hallifax receberam milhares de pessoas, sendo a terceira localidade que mais recebeu pessoas a cidade de Gander.

Gander, uma cidade localizada na província de Newfoundland e Labrador no Canadá, diferente das outras duas, tinha uma população pequena. Sendo a oitava e décima quarta maiores cidades do país as outras duas tinham o escopo para receber tanta gente. Gander com pouco mais de 10 mil habitantes teve um aumento massivo em sua população ao do dia pra noite aumentar em quase 7 mil pessoas sua população.
O musical
Somos primeiro apresentados aos cidadãos de Gander. Para eles era uma manhã normal, as crianças foram pra escola e os adultos aos seus trabalhos, isso foi antes do twitter e outras formas de informação instantânea, então eles ainda usavam rádio como fonte de informação. Então no meio da manhã eles ouvem a notícia. Receber a notícia diversas vezes faz com que você vá aceitando-a em partes, assim como eles. Logo eles são notificados de que eles estarão recebendo dezenas de aviões, trinta e oito para ser exato.
A população da cidade incha e todos se preocupam muito, certamente as pessoas que estavam nos aviões mais do que todos, já que eles nem sabiam ao certo o que tinha acontecido, onde eles estavam ou qual seria futuro deles. Eles passam um dia inteiro dentro dos aviões até que finalmente são liberados para descer. As pessoas da cidade recebem os estrangeiros primeiro os colocam em escolas, hotéis, etc. Contudo o relacionamento cresce e depois eles colocam as pessoas dentro de suas casas.
O musical é extremamente engraçado, o que é quase ofensivo considerando o período terrível e os acontecimentos horrendos que ele retrata. Uma das cenas do começo da obra mostra duas mulheres levantando as camisas e ficando só de sutiã no palco, o que os meus amigos canadenses acharam um tanto quanto sensual e eu, na minha condição de brasileiro e praiano, só fiz rir da cara deles.
As músicas corroboram para esse tom sendo em sua maioria animadas e de extremo bom tom. Apenas uma das músicas é extremamente triste, que é a “I am Here” que fala do sentimento de perda e da saudade de uma mãe por um filho, o que realmente te destroça já que você fica embalado na busca e sente profundamente a perda da personagem. Outra música fortíssima pra mim é “Me and the Sky” que conta a história de Beverley Bass a primeira piloto comercial mulher dos Estados Unidos. A música é interpretada pela atriz da Broadway Jenn Colella de maneira incrível.

Beverley Bass e Jenn Colella juntas na festa de Come From Away
Ouvi-la descrever seu processo de mudança, que foi recheado de preconceitos e lutas, mas que no fim é coroado com a conquista de seu sonho, é magnífico. E de repente você se encontra torcendo por ela, sonhando com ela e sofrendo com ela.
A humanidade continua a me surpreender
O final é feliz, talvez para nos mostrar que apesar de tudo, de que as maiores tragédias do mundo quando somos confrontados com o horror, com a maldade e com a pior face da humanidade; também podemos observar sua face mais bela. A humanidade não cansa de ser dualista, ao mesmo tempo que tem uma beleza profunda ela tem uma maldade inerente. Somos maus até que algo nos force a ser bons ou somos bons, mas corrompidos pela sociedade? O gênio humano é uma força a ser reconhecida, somos capazes de todas as coisas as quais nos propomos.
Markus Zusak já perguntava como uma coisa pode ser ao mesmo tempo bela e feia. Concordo com ele, os humanos me assustam, somos loucos, somos lobos, matamos uns aos outros pelo simples prazer de matar. Ao mesmo tempo em que contemos uma profunda beleza, uma bondade indizível, um amor que é realmente belo de se ver. Somos paradoxais, e de milhares de maneiras isso me surpreende.

Por estarmos em constante mudança nos permitimos esses pequenos momentos de dualidade. É verdade somos inconstantes, ao ponto de não sermos, estarmos, então acredito que a verdade se encontre não em sermos feios ou belos, bons ou maus, éticos ou criminosos, santos ou pecadores… A lista em si é infinita, contudo acredito que temos nossos momentos. Os que acreditam em alguma espécie de divino podem colocar Deus como um fator redentivo, os que não acreditam não sei como explicam a dualidade humana.
Gander fez o mundo relembrar que ainda podemos ser surpreendidos, que em tempos de terrorismo ainda nos é possível ver beleza indizível, que em tempos de medo ainda é possível ser silver linings trouth the clouths, pois não importa o que ocorra o dia voltará a raiar, as nuvens vão passar e o sol voltará a raiar. Por isso eu amo esse musical, ele me lembra que ainda a bondade no coração humano, a sociedade ainda consegue me surpreender.
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Sobre o autor:
Pedro Vieira
Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.




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