Nem Todos Temos Direito ao Sol | O Sol é Para Todos| Resenha
- Pedro Vieira

- 15 de jan. de 2022
- 4 min de leitura

Mesmo antes de lê-lo eu tinha um problema com O Sol é Para Todos, nada relacionado a história ou algo do tipo, mas o simples fato da tradução do título. To Kill a Mockingbird não é de nenhuma maneira The Sun is For Everyone, eventualmente ganhei o livro de presente e o li. Ainda buscando significado para o título To Kill a Mockingbird, durante a leitura entendi que talvez o título traduzido tenha sido se não melhor que o original ao menos tão bom quanto.


O livro fala sobre uma família não tradicional, um pai solteiro, um filho, uma filha e a empregada. A história é ambientada na década de trinta no sul dos Estados Unidos no estado do Alabama. Atticus, o pai, é um respeitado advogado e membro ilustre de uma respeitada e antiga família que coloca tudo a perder quando se dispõe a fazer o impensável, defender um negro.
No decorrer da história ambos os títulos são explicados, numa cena no começo da história em que as crianças recebem espingardas de ar como presentes de natal e o pai diz: “(…) Lembre-se: é pecado matar um rouxinol”. E em outra no final em que eles comparam uma possível ação a um erro, o erro de matar um rouxinol.
Contudo o título em português Brasil, nos trás mais do cerne da história. A história é narrada por Scout, apelido para a filha de Atticus, ela é uma menina na segunda infância que é simplesmente fora do esperado, não é como as outras meninas ou mesmo como as outras crianças. Scout é mais inteligente, o que pode ser uma benção ou uma maldição, e simplesmente não entende ou aceita muitos dos comportamentos que são estipulados e esperados que ela tenha, enquanto uma dama branca do Sul.
Muito da vida dela muda quando o pai decide defender Tom, um homem negro que foi acusado de estuprar uma jovem branca. As cenas no tribunal são intensas e por muitas vezes me peguei pensando quando realmente aquele livro tinha sido escrito, na década de 60 ou olhando a nossa realidade.
Foi impossível não lembrar dos massivos protestos que inundaram as redes sociais no ano de 2020, desencadeados com a morte de George Floyd. O movimento #blacklivesmatter assim como sua contraparte brasileira #vidaspretasimportam me vieram várias vezes à mente enquanto eu lia o livro.
Um homem que é preso e condenado à pena capital por meio de provas circunstanciais com exceção de uma: seu genoma ter maior concentração de melanina. Em palavras grandes fica diferente, pode parecer difícil, mas a verdade é que ele era preto. Um bom homem foi condenado à morte por ser preto. E o pior é que todos sabiam que ele seria condenado à morte por isso, desde de o júri, até ele mesmo, passando pelo juiz, sua esposa, seus acusadores e até seu advogado. Os únicos que acreditavam na possibilidade dele ser absolvido eram as crianças e nós os leitores que gostamos de acreditar em reviravoltas e esperar plot twists que às vezes não existem e nesse caso esse talvez tenha sido o verdadeiro twist, esperávamos salvação, mas ela não nos foi concedida. Tom Robinson pode até ser fictício, mas ele não representaria incontáveis pessoas reais, homens e mulheres que todos os anos morrem por nada além de sua cor?

Assim como Scout e Jem, seu irmão, quando eu era pequeno não costumava ver cor em pessoas, achava que só existia um tipo de gente: gente. Achava que sexo, gênero, opção sexual, religião, nacionalidade e cor eram apenas diferenças, que nos faziam únicos no meio de tantos iguais. Isso foi antes de eu aprender sobre história, sobre sociologia de ver o preconceito que mesmo pessoas boas tinham contra determinado grupo social que essa definição caiu.

Abri mão da visão de menino para que em lugar dela algo mais triste, embora mais real, tomasse conta. Enquanto menino via o mundo como ele deveria ser, um lugar imperfeito é verdade, mas um lugar em que todos têm chances iguais. Acreditava na meritocracia, nos ideais iluministas em que todos os homens foram criados iguais, e de que não tínhamos nada melhor ou pior do que os outros, não por nascermos, não por algo tão simples quanto nascer. Acreditava eu que só éramos julgados pelas ações que tomávamos, que apenas os culpados eram penalizados, cria eu que todos nasciam com direito a um lugar ao Sol; não são belos os sonhos das crianças?
Isso foi antes e agora de alguma maneira eu tenho de viver no depois. Viver mesmo sabendo que a minha utopia era só isso uma utopia infantil, em que os ideais democráticos eram completamente verdadeiros. Antes de entender o que são classes sociais, ou o preconceito racial, como o contrato social moldou a nossa realidade e como os fortes dominavam e massacraram e subjugaram qualquer um que pudessem, fossem esses seus vizinhos, mulheres, filhas ou os diferentes.
Apesar de tudo como alguém que por fatores simplesmente biológicos fui ou serei de alguma maneira olhado de forma diferente, julgado pelo que ainda não fiz, colocado de lado e até mesmo silenciado. Eu ainda tenho voz, para lutar por mim e por outros, aqueles como eu e aqueles com quem eu não me identifico, por que no fundo acredito que se não é, o Sol ao menos deveria ser para todos.
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Sobre o autor:
Pedro Vieira
Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.




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