O Amor nos faz Idiotas | Autoral
- Pedro Vieira

- 14 de mar. de 2022
- 4 min de leitura

Platão, um dos mais relevantes filósofos de toda a história comparou o amor a uma doença mental. E com tudo o que vimos sobre amor no decorrer da humanidade não podemos deixar de concordar com ele. O amor realmente nos priva de nossos sentidos, quando amamos não conseguimos pensar claramente e fazemos coisas que, convenhamos, são bem idiotas. Algumas das maiores histórias de amor são sobre tremendos idiotas, eu poderia citar várias, mas Romeu e Julieta já exemplifica o que eu quero dizer, a peça é sobre dois completos trouxas que ficam fazendo idiotice atrás de idiotice e cometendo diversos erros fatais, que no fim levam a morte de diversas pessoas. E ainda assim, ainda assim é a maior história de amor. A temática do amor enquanto algo prejudicial, ou as diversas formas em que ele nos faz tolos vem crescendo nos últimos tempos. Sim existem contos e histórias de casais idiotas que remontam aos tempos imemoriais dos gregos antigos, mas a modernidade não fica muito pra trás nisso.
Jão - Idiota
Pessoalmente não tenho o costume de ouvir muita música brasileira, eu sei erro meu. Então pra mim quando eu descubro um cantor ou cantora de quem eu realmente gosto é muito bom, podemos entender a letra em outras línguas, mas nada nunca é tão impactante quanto ouvir a canção feita pelo nosso povo em nosso idioma. O brasileiro tem muita experiência em ser feito de trouxa por amor, vide todo o repertório de sertanejo que existe nessa nação. Contudo um paulista foi talvez quem exemplificou melhor o sentimento de idiotice amorosa ao declamar:
“Eu vou te amar como um idiota ama”
E isso tem um impacto literário grandioso, se todas as grandes histórias de amor são sobre idiotas a melhor forma de comparação para o amor é com o amor de um idiota. Por que um idiota está disposto a ir mais longe, ele te ama o suficiente pra morrer por você, pra perdoar tudo e qualquer coisa. O que fica bem exemplificado com as escolhas das referências do vídeo-clip, especialmente as duas primeiras: Jack e Rose de Titanic e também Jack e Ennis de O segredo de Brokeback Mountain. Dois pares de completos idiotas, tanto que em Titanic Jack literalmente diz:

Você é burra. Por que você fez aquilo, em? Você é burra, Rose.
Por que você fez aquilo? Por que?
Quer dizer a mina pulou da merda do bote salva vidas e basicamente matou o Jack, duas vezes eu não vou nem mencionar aquela maldita porta. Mas ele amava ela e ela amava ele, a ponto de morrer por ela e a ponto de desistir de todo o seu futuro por ele. Enquanto idiotas, eles se amavam a ponto de desistir de tudo em nome do amor, novamente me absterei de falar do filme, mas aquele maldito colar, é só o que eu vou dizer. Pra perdoar o imperdoável e aceitar aquilo que machuca você e ainda chamar de amor, só sendo idiota pra aceitar.
“Me perdi em nós e gostei mais de você
Do que você gostou de mim
E tudo certo”
Ao aceitar que tudo bem viver em uma relação que não se sustenta em respeito, amor mútuo e diversas outras coisas, estamos nos submetendo a um caminho fadado à falha. Um relacionamento em que as partes dele querem coisas diferentes não daria certo. Para citar a bíblia seria se colocar sob jugo desigual, que embora seja geralmente usado no sentido de não se unir em matrimônio com pessoas de religiões diferentes, pode ser, por analogia, aplicado aos momentos em que o casal tem objetivos radicalmente diferentes dentro da relação.

Jugo Desigual, quando se colocavam dois animais não compatível para arar a terra e isso simplesmente não funcionava, e podia colocar os animais em perigo.
Finneas - Break my Heart Again
A exemplo disso, um casal com objetivos diferentes e conflitantes que dana uma das partes, creio que é possível citar a canção do Finneas, o irmão da Billie Eilish, Break My Heart Again:
“So go ahead and break my heart again
(...)
Oh, it must be nice
To love someone who lets you break them twice”
“Então vá e quebre meu coração novamente
(...)
Ohh, deve ser legal
Amar alguém que deixa, por você ser quebrado duas vezes”
Alguém que está disposto a ter o seu coração partido novamente para agradar a pessoa amada é muito na minha opinião. O eu-lírico se coloca num lugar deprimente ao implorar atenção de alguém que claramente não está tão investido na relação quanto ele. Ele não sabe ao certo o que está fazendo, percebe que esse amor não é saudável e a semelhança de Platão se pergunta se esse amor o deixou louco.
O Amor que julgamos merecer
Amor é difícil, embora seja natural, geralmente não sabemos ao certo o que fazer com ele, não sabemos lidar com o amor. Eu nunca entendi como alguém poderia estar em um relacionamento abusivo, especialmente um que envolve abuso físico, até que eu percebi o que é realmente de verdade amar alguém. Amamos apesar das falhas, acreditamos que poderemos mudar a pessoa, que elas querem ser mudadas que de alguma maneira elas irão superar as suas falhas, nunca vivi um relacionamento abusivo, mas acredito que as pessoas que entram nesses relacionamentos se sentem da mesma forma. É o que disse Stephen Chbosky em seu romance As Vantagens de Ser Invisível:

Por aceitarmos amar assim somos idiotas ou somos idealistas? O amor nos faz tolos ou completos? É verdade que por vezes acreditamos que podemos morrer de amor ou mesmo por amor. E apesar das piadas que faço acredito que isso é bonito, acredito que não há prova de demonstração maior de amor do que dar a sua vida por outrem, embora não tenha encontrado essa pessoa em minha vida.
Ou quem sabe eu sou apaixonado por um ideal, e a minha maneira fui feito de idiota pelo amor que tenha a uma ideia.
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Sobre o autor:
Pedro Vieira
Escrevo pois sou poeta, minhas ideias imaginárias no papel tomam forma e minha dor arte se torna.


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